Roda Quadrada…

RODA QUADRADA…

Roda o quê?

Quadrada?

Não, não e não….

Quadrada mesmo são as mentes pequenas que ouvem e repetem como papagaios um conceito tosco e pejorativo que surgiu no Brasil  logo após a mudança de legislação de trânsito ocorrida em 1997. Há, você assustou-se pois achou que esse conceito sempre existiu?

É Cara Pálida, quero mesmo  que você um ser pensante como acredito que deveria ser, pare para se questionar quanto preconceito existe nessas  duas, aparentemente inocentes palavras significam para quem as ouve. Há, e não se assuste com minha repentina mudança de tom e se o post parecer menos cordial e carinhoso como o habitual, mas o assunto requer um balde de água fria, afinal trailer é que nem bunda, cada um usa o seu como melhor lhe convier.

Mas antes de te explicar o que pensam os “rodas quadradas” em relação aos  que se dizem “redondas” ou mesmo “ovais”, vou contar-lhes um pouquinho de história.

Desde muito jovem sempre adorei  acampar, mas nada de camping com toda infraestrutura, quanto mais selvagem o acampamento, mais me atraia a ideia. Conviver com a natureza, acordar com o canto dos pássaros ou com o som de uma cachoeira sempre me encantou e me ensinou que  o verdadeiro valor das coisas está naquilo que que nos preenche a alma, que nos enriquece como seres humanos e nos apequena diante da grandeza e da perfeição da natureza.

Com o tempo e a “maturidade”  vieram as reponsabilidades do cotidiano e a escravidão imposta pelo sistema,  se instaurou então a necessidade de trabalhar muitas e muitas horas por dia para comprar casa boa, carão, andar feito uma árvore de natal sempre com maquiagem impecável, unhas feitas, cremes até para as rugas que ainda nem nasceram e assim muitos anos se passaram, mas sempre com a sensação que o caminho trilhado estava errado, que algo muito significativo estava faltando. O desejo de percorrer o mundo, conhecer culturas, sujar o coturno de barro, fotografar pássaros, escrever sobre  as experiências culinária, jeito de vestir e viver das diferentes culturas sempre foi uma lacuna a ser preenchida, até que surgiu ele, o protagonista dessa história, que comprou um trailer meses antes de eu aparecer e invadir a vida dele para que juntos vivêssemos essas experiências e aprendizados.

Pois bem,  como toda mudança requer uma adaptação e preparação para acontecer, eis que resolvemos morar em um camping até que tudo estivesse 100% (impossível) resolvido, a ideia era ficar apenas 3 meses, mas os imprevistos  foram vários. Primeiro o carro clonado, depois de um ano para resolver veio o teste para puxar o trailer que não funcionou como deveria, aí tivemos que trocar o carro, junto com a troca do carro vão-se as reservas embora ainda tenham sobrado os anéis (por pouco), aí vem a necessidade de ficar mais um pouco até que tudo vá entrando nos eixos. Nisso se passaram quase dois anos, entretanto, essa demora não nos consome, ao contrário, é uma espera  que faz com que acordemos todos os dias com o canto dos pássaros, que possamos ver o entardecer tomando um chimarrão, nos dá tempo para ler nossos livros, escrever algumas linhas vez ou outra, fazer manutenções em nosso trailer/casa o deixando cada vez mais agradável de se viver, curtir os amigos do camping, e viver diariamente em um espaço verde de 66 mil metros quadrados que nos permite contemplar muitos pássaros, esquilos, cotias, lagartos e até gambazinhos.

Nesse tempo de espera, viajamos de barraca sempre que podemos, com  o trailer também embora seja com menos frequência. A decisão de vivermos em um camping, mesmo que pareça redundante, nos faz viver campistas 24 hs por dia, 365 dias por ano. Viajamos sempre que desejamos sem ter que esperar um feriadão prolongado, se desejamos passar 1 dia, 10 dias ou mais de um mês em algum lugar, nós simplesmente vamos.

Então para aqueles “quadrados” que chegam no camping e arrogantemente nos chamam de rodas quadradas saibam que esse termo surgiu, como citado no início deste post, após a mudança de legislação de trânsito ocorrida em 1997 que fez com que muitas pessoas, a maioria já com uma idade mais avançada não tivesse o interesse de adequar a carteira para uma nova categoria assim forçando muitos dos que tinham trailer rodando a encostarem, em alguns casos para sempre. Esses trailers em sua maioria viraram casas de veraneio ou de campo, na qual a família ia para passar poucos dias, sem que jamais o tirassem do local.

Com os anos foi-se criando um preconceito tosco e mesquinho com aqueles que optaram em viver no trailer (fato que não vemos ocorrendo com quem mora em motor home).  O que as mentes quadradas que possuem esse preconceito não entendem é que quem optou em viver no trailer normalmente são aqueles que já possui uma certa autonomia de tempo e dinheiro para fazer isso, pois o sistema de trabalho e escola de filhos escraviza a maioria que só podem viajar com o trailer uma ou duas vezes por ano e ainda assim quando muito ficam, dificilmente passam de 20 dias.

Muitos aqui no Brasil somente pegaram onda em um preconceito já existente nos EUA em relação a quem mora em trailer, mas sem analisarem as diferenças culturais que são maiores que um oceano.  Nos EUA é comum ter preconceito para quem vive em um trailer, mas lá a coisa é diferente, existem milhares de camping espalhados por todo país, alguns desses possuem mais de dois mil trailers, normalmente o dono dos trailers é o dono do terreno que loca esses espaços e por preços bem baixos, então, quem tem dificuldades para pagar um aluguel nos EUA opta em viver em um trailer, pois estes com o equipamento e mais o aluguel não sai mais que 600 dólares mensais e normalmente se tem  fila de espera para locação, entretanto, em alguns desses espaços há muita violência, uso de drogas, prostituição e os americanos têm lá as suas ressalvas por quem vive nesses espaços.

Há também camping só para pessoas idosas e camping de luxo, que são condomínios lindíssimos que oferecem toda infraestrutura  para se viver maravilhosamente bem, claro que o preço nesses locais são bem diferentes e por aí só já seleciona o seu público que é mais eletizado.

No Brasil o que ocorre é exatamente o contrário do que acontece nos EUA, quem opta em viver em um trailer normalmente já tem uma situação financeira estável   e esta (assim como nós) praticando o desapego, tentando viver de uma forma mais simples e principalmente  mais livre das convenções e prisões impostas pela sociedade. Pena que poucas pessoas já se deram conta desse estilo de vida, a maioria quer um trailer ou Motor home apenas para viagens eventuais, não perceberam ainda o quanto esse estilo de vida podem nos enriquecer culturalmente e especialmente, nos ajudar no desenvolvimento humano.

Sim, nós moramos em um trailer, sim nós não temos endereço fixo e nem compromissos com prazos e em breve menos ainda pois estaremos em uma viagem  pelo Brasil sem data para voltarmos, talvez nem voltemos mais. Iremos passar dois meses, seis, oito, 1 ano parados em alguma cidade do interiorzão, até transbordarmos com a cultura local, até conhecermos o povo, até escrevermos algumas linhas, até que a vontade de seguir em frente se faça prioridade, sem datas, sem calendário.

Então quadrados de plantão, a próxima vez que pensarem em chamar alguém de roda quadrada pense o quão otário essa pessoa deve estar imaginando que você é, afinal, quadrado mesmo é o teu preconceito tosco e mesquinho. Aproveite a oportunidade quando conhecer alguém que vive em um estilo de vida diferente do seu para aprender, para trocar experiências, para evoluir pois é isso que nós fazemos todos os dias da nossa existência.

Até a próxima.

 

NOSSA CASA, NOSSO QUINTAL, NOSSO ENTARDECER…

 

 

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