Acampamento e trilha na comunidade São Roque

O Dia que Fomos Acolhidos por Uma Comunidade Quilombola

Sempre que me perguntam o que há de melhor em viver na estrada eu não hesito em responder: As pessoas.

Sim, as pessoas que encontramos pelo caminho nos fornecem o maior tesouro a ser levado em nossa bagagem e foi em um desses momentos que nos perdemos pelo caminho que o destino sabiamente nos colocou na direção da comunidade Quilombola São Roque, localizada na Cidade de Praia Grande em Santa Catarina na divisa com Rio Grande do sul.

Fomos para passar apenas uma noite mas a forma que fomos acolhidos por todos da comunidade nos fizeram passar 3 noites e 3 dias e por pouco não ficamos mais.

A comunidade São Roque ainda mantém viva a cultura e tradição de seus antepassados e com cada ancião com quem conversávamos era uma completa aula de história.

O Assunto rendeu tanto, que estou montando um pequeno documentário com fragmentos dos relatos e histórias
de violência e injustiça, mas também de lutas e resistência. A comunidade foi formada da indignação de homens e mulheres que se recusaram a trabalhar como escravos, formando o quilombo São Roque.

O tempo passou mas a resistência e a luta desse povo sofrido continuam até os dias atuais, até mesmo para poder plantar na terra que vivem desde meados de 1.800 eles precisam lutar na justiça, fato que ocorre desde 2004 quando foram proibidos de cultivar a terra dos seus antepassados por elas estarem inseridas nas regiões dos Cânions, protegidos pelas leis ambientais.

Réplica de uma casa da época da escravidão. Esta casa fica ao lado da escola da Comunidade São Roque.

Contam que no período da proibição muitas famílias começaram a passar fome, era da terra eles tiravam todo o sustento de suas famílias. Após a proibição muitos venderam suas terras por trocados e migraram para a cidade mas sem saber ler ou escrever acabaram por viver uma nova escravidão, o da fome, do preconceito e da falta de apoio político.

Hoje com o apoio de algumas entidades e promotores de justiça estão aos poucos conseguindo reaver as suas terras e expulsar os impostores que estavam explorando a área de forma ilegal. Estão conseguindo cultivar suas roças familiares e aos poucos o sorriso branco e largo, que aliás é uma característica marcante desse povo esta voltando.

As histórias são muitas e os contos e lendas também. Conversar com o Sr Dirceu e seu irmão Valdir nos fez viajar ao passado quando ficava eu e meus irmãos sentados ao lado do fogão a lenha comendo pinhão e ouvindo nossos avós contarem as lendas dos “matos”, eram estórias de boitatá, mula sem cabeça, corpo seco entre tantas outras. Lá na comunidade ouvimos o conto do Príncipe que percorria a região da Pedra Branca em busca de uma noiva, ouvimos o conto do espírito perdido do moço que encilhou a própria mãe e por aí vai. Se passam horas e horas ouvindo a história deles sem que nos cansemos.

Mas como não é só de contos e histórias que eles vivem, fomos fuçar um pouquinho para saber mais sobre o que eles plantam, como vivem, artesanato, culinária e escola.

Descobrimos que plantam de tudo um pouco e o Pedro foi conhecer a roça do Elizeu que hoje é o presidente da associação. Ele nos recebeu em sua casa para o café da tarde e sua esposa Simone com todo o carinho nos preparou um delicioso pão de Ló.

Acolhida sábado a tarde na Casa do Eliseu e da Simone, com direito a chimarrão e Pão de Ló

De lá saímos com a feira da semana feita e o coração cheio de alegria.

Ganhamos Aipim fresquinho, couve, alface, cheiro verde, ovos caipira. Mais tarde outro morador nos trouxe espigas de milho verde, outro nos trouxe lambari pescados no rio que passava bem atrás no nosso acampamento e também trouxe um potinho de farofa de amendoim feito no pilão, nossa, esse último presente foi para me derrubar, quase chorei, juro. Mas você deve estar pensando, tá, o que um potinho de farofa de amendoim tem de tão especial? Tem gosto de infância, minha avó fazia e eu amava.

Rio que passava logo atrás do nosso acampamento

Ainda Tem a dona Maria, anfitriã muito acolhedora e simpática, ela tem uma pequena venda de coisas que ela mesma produz. Em sua maioria conservas e geleias feitas com produtos locais. Na cozinha ela prepara carinhosamente uma polenta, comida a base de farinha de milho que era muito apreciada pelos seus antepassados e servida sempre com fartura até hoje na mesa do povo Quilombola São Roque. _”É uma herança que guardamos com carinho”, conta dona Maria Rita dos Santos

Como podem perceber, todo esse carinho e acolhida deixou marcas registradas, não apenas em nossas câmeras fotográficas mas também em nossos corações.

Descobrimos também que eles mantem viva a tradição da confecção de cestos e balaios que são feitos com tiras de cipó ou com taquara de Bambu, utensílios esses que eram muito usados pelos seus avós para guardar milho ou outros produtos. Eles colocavam no lombo das mulas e transportavam as cargas até São Francisco de Paula, onde tudo era vendido,” conta o sr João Gabriel.

Na comunidade todos fazem questão de manter viva as tradições de seus antepassados, seja através da música, da agricultura ou do artesanato.

Na única escolinha da comunidade ensina-se o bê-á-bá para os pequeninos durante o dia e a noite ensina-se os adultos não apenas como se fazer valer das letras, mas também como resgatar por exemplo, os conhecimentos das plantas medicinais, plantas estas que até hoje são utilizadas pela comunidade para tratar e curar os mais diversos males que acometem homens e bichos (em sua maioria causadas em razão da modernidade), um conhecimento que sem dúvida não pode se perder.

E claro que em meio a tantos presentes que ganhamos, não podia faltar uma erva medicinal, quer dizer, duas ervas. Ganhamos do Sr Dirceu a Quina e uma”vorta” de cipó Mil Homens, a primeira serve melhora a digestão, ajuda a desintoxicar o fígado e o organismo, tem ação antisséptica e anti-inflamatória, auxilia no tratamento da malária, combate a febre, reduz dores no corpo….enfim, as propriedades são Muitas.

Já o cipó de Mil Homens é uma das plantas com propriedades medicinais fortíssimas e com um nome bastante curioso batizado pelo sanitarista Carlos Chagas, que usou o tal cipó para tratar milhares de operários das ferrovias brasileiras, contaminados por um tipo perigoso de malária.

Na noite em que chegamos era o encerramento do ano escolar (inicio de dezembro), lá pudemos conhecer alguns dos professores e vários membros da comunidade. O Sr Dirceu e seu irmão Valdir faziam parte dessa turma, ambos já passado dos 60 anos decidiram andar 5 km toda noite para frequentarem as aulas noturna, e pasmem, o Sr Valdir disse que ainda fará uma faculdade.

Em razão do tempo que acabou sendo corrido, acabamos não indo até a casa deles, que segundo o que nos explicaram é feita de pau a pique, coberta de lona e fica inserida bem no meio da floresta, lá não tem luz nem água encanada e vez ou outra o Leão aparece e acaba comendo um porco e uma vez acabou pegando um dos cachorros deles. Confesso que lamentei muito não poder ir até lá tomar um café tropeiro com eles.

Dentro do território da comunidade esta inserido um ponto turístico bastante procurado pelos aventureiros, a famosa Pedra Branca. São aproximadamente 900 metros de altitude, não parece muito né, mas não subestime, a trilha é bem perigosa em razão das diversas serpentes que habitam a região, uma aliás passou entre os pés do Pedro e por sorte o anjinho da guarda dele estava bem antenado.

Não íamos fazer essa trilha sozinhos justamente por receio das cobras, mas como sempre somos presenteados com a presença de pessoas especiais, acabamos por encontrar o Lobão e sua turma, guias experientes e conhecedores dos perigos e armadilhas a que podemos ser vítimas em meio a mata. E claro que aceitamos o convite, para a nossa felicidade, afinal, se não fosse pela ajuda deles não teríamos chego ao topo da escalada.

Ao Bruno coube carregar a mochilinha da Duda, a mim e ao Pedro coube ofegar muito, dar muito trabalho e deixar todo mundo sem água com uma certa antecedência. Foram pouco mais de 3 horas de caminhada sob o sol de quase 40 graus, no final para alcançar o topo tive um apoio extra do Lobão que apanhou meus pulsos e literalmente puxou-me pelos últimos 100 metros sobre a rocha lisa.

E no final o premio, uma vista de tirar o fôlego. No topo dessa pedra há uma plataforma Base Jump (tem doido pra tudo).

Na volta com sede, com fome, cansados e suados de dar dó, fomos direto tomar água, cervejinha gelada e colocar a carne no fogo. Uma panelada de mandioca que ganhamos no dia anterior e um pouco de carne fizeram a nossa festa e de mais algumas crianças da comunidade que se sentaram no chão em circulo e comeram junto com a gente, direto com as mãos mesmo. Foi bom demais compartilhar esse momento com eles pena que no meio a fome e a muvuca nem lembrei de pegar a câmera para registrar.

Comunidade São Roque localizada na cidade de Praia Grande em Santa Catarina.

Enquanto comíamos rolava um jogo de futebol no Campinho e muita música alegre tocada e cantada por alguns integrantes da comunidade, enquanto isso lá dentro na sede da escola eram preparada comidas e petiscos e na nossa casinha recebíamos as visitas dos nossos amiguinhos que deixaram nossa casinha mais alegre e colorida.

Nosso amiguinho foi visitar nossa casinha….

No Balção entre a cozinha e a sala “social” da escola onde acontece a maior parte dos eventos, também estavam expostos algumas gamelas talhadas na madeira e feitas a mão pelo Elizeu, atual presidente da associação dos Quilombolas. Compramos uma e desde então ela é nossa companhia em todos os nossos churrascos.

No outro canto da Sala próximo a um palco de madeira estavam expostos alguns quadros feitos por um dos senhores mais antigos da vila.

E assim passamos nossos 3 dias, cercados de pessoas, cercados de histórias, de costumes, de aventuras e acima de tudo cercados de muito carinho.

Por isso só posso finalizar esse post dizendo, Obrigada Eliseu, obrigada Simone, Dna Maria, Sr Dirceu, Sr Valdir, Sr Roque, Sr João e tantos outros rostos que embora eu não consiga lembrar o nome de todos, ficarão gravados em nossa memória e coração para sempre.

Obrigada Comunidade São Roque.

Algumas observações.

A comunidade nos forneceu água, luz e banheiro com chuveiro quente, eles não cobram valores de diária mas cada um deve contribuir com o que puder ou achar justo, afinal a Luz consumida não é gratuita para eles.

A região fica aproximadamente 30 km da trilha do Rio do Boi, então se você quer se aventurar um pouco mais essa dica pode ser uma boa pedida, há, e se tiver donativos como roupas, brinquedos ou alimentos pode ter certeza que serão bem aproveitados por eles, tem muita gente que precisa. Junte os amigos e se aventure, depois volte aqui e me conte como foi a tua experiência.

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